Café, o amigo desconhecido

setembro 17, 2010

Grãos de café.

O Brasil é o maior produtor mundial de café e a bebida é uma das mais populares do país. Ainda assim, a maioria das pessoas toma um péssimo café. Antigamente, isso acontecia por falta de acesso aos melhores grãos, que eram destinados à exportação.

Hoje, felizmente, este quadro mudou; temos acesso a excelentes variedades de café, de diversos países do mundo e diferentes regiões brasileiras, com moagens especiais para filtro ou espresso, grãos inteiros para serem moídos na hora, diferentes níveis de torra, versões em cápsula para as máquinas de espresso e muito mais.

Mesmo assim, muita gente continua tomando um café horrível – não mais por falta de acesso aos melhores produtos, mas por desinformação.

Abaixo, reuni diversas orientações acumuladas através de pesquisas na internet, livros e, especialmente, muita tentativa e erro na hora de preparar meus cafés.

Fica desde já o aviso: não sou um especialista no assunto. Minha intenção é abrir os olhos de quem nunca havia parado para pensar no grande número de variáveis que existem por trás de um bom café, através de ficas práticas que me ajudaram a descobrir uma nova paixão nesta bebida. Vamos lá.

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1. Escolha dos grãos

São duas as espécies de café utilizadas comercialmente para preparo da bebida: Arábica (Coffea arabica) e Robusta (Coffea canephora). A Arábica é considerada indiscutivelmente superior, produzindo uma bebida de melhor aroma e sabor, além de possuir menos cafeína do que a variedade Robusta. O problema da Arábica é que sua plantação estabelece mais restrições quanto ao clima e tipo de solo, além de exigir mais cuidados do que a Robusta, que, como o próprio nome indica, é mais resistente, e por isso mais barata de se produzir. Assim, a Robusta é comercialmente mais conveniente, de fácil plantio; só recentemente, com a onda gourmet que invadiu os supermercados brasileiros, passamos a ter mais facilidade de acesso aos grãos Arábica.

Uma pessoa que aprecie um bom café (independente dos métodos utilizados para a extração da bebida, tratados a seguir) torce o nariz para a variedade Robusta. Utilize apenas grãos 100% Arábica. Ponto final.

Alguém então poderia perguntar: se vou utilizar sempre grãos Arábica, isso quer dizer que vou beber sempre um café com o mesmo sabor?

Não. Embora a espécie indicada para a produção da bebida seja apenas uma – a Arábica -, existe na verdade uma infinidade de tipos de grãos, cujos sabores e aromas variam em função das características do solo do local de plantio, topografia, clima, outras culturas ou flores plantadas na mesma região, época de semeadura e colheita, técnicas de adubação e preparo do solo, entre muitos outros fatores.

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2. Mudanças de hábito necessárias

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2.1. Garrafa térmica: 20 minutos após a produção do café, a bebida começa a oxidar, perdendo o aroma, sabor e qualidades nutritivas. Popularmente, diz-se que o café ficou “com gosto de velho”. Assim sendo, o café é uma bebida para ser consumida imediatamente após o preparo, sempre fresquinha.

E onde entra a garrafa térmica nesta história? Bem, ela não entra. É isso mesmo: o ideal é que você a elimine de seu cotidiano (ou quase, como explicarei abaixo). Por mais que conserve o café quente, a garrafa térmica não é capaz de impedir o processo de envelhecimento e degradação da bebida.

“Isso quer dizer que eu vou ter que fazer café novo toda vez que quiser tomar uma xícara?”

Sim, preferencialmente.

Mas acredite: você vai perceber a diferença de qualidade e realizará este trabalho com todo prazer. De que adianta um café convenientemente guardado na garrafa, se ele tem gosto de velho? Quando começar a beber e apreciar o café sempre feito na hora, não vai sentir saudades da garrafa térmica.

Exceções: quando for servir café para muitas pessoas – digamos, aos convidados no final de um jantar -, você pode usar uma garrafa térmica para manter a bebida aquecida, já que nem todos vão se servir exatamente ao mesmo tempo, e o café poderia esfriar num intervalo de 5 minutos. Se mais de uma pessoa da família tiver o hábito de tomar café no café da manhã, também pode ser uma boa usar a garrafa térmica, desde que se lembrem que a bebida só estará adequada para consumo até 20 minutos após o preparo.

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2.2. Moagem: ter um moedor de café em casa não é um luxo – se você gosta de café, é uma necessidade. O motivo é simples: manter o grão inteiro ajuda a preservar os óleos que estão no “miolo” do grão, mantendo-os protegidos da exposição ao ar e à luz. No momento que o grão é moído, essa exposição inicia o processo de degradação, resultando em perda de aroma e sabor. Quando você compra o café já moído, não sabe há quantos dias, semanas (ou até meses!) aquele café está alí. Assim como a mudança de grãos Robusta para 100% Arábica, a mudança do regime de café comprado já moído para o café moído na hora é um passo sem volta! A diferença de sabor é nítida e incomparável.

Eu possuo e recomendo o modelo DCG20, da Cuisinart. É elétrico, barato e pequenininho, facilmente encontrado em lojas físicas ou pela internet, e faz o serviço com perfeição. Nele, a regulagem da espessura do grão funciona com base no tempo de acionamento: 10s para pó grosso, 20s para médio, 30s para fino. Abaixo, quando falarei dos métodos de preparo, abordarei a espessura de pó para cada um.

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2.3. Açúcar: talvez você já tenha ouvido falar que “o certo é beber o café sem açúcar (ou adoçante diet/light)”. Não gosto dessa mentalidade, não apenas em relação ao café, mas também a qualquer outra área da gastronomia. Para mim, “o certo” é agradar o seu paladar. De que adianta fazer “o certo” e não saborear o alimento de uma maneira que te satisfaça? Portanto, fica o alerta: você não está fazendo “certo” ou “errado” ao beber o café com açúcar.

Que lindo.

Agora, vamos considerar uma outra coisa: essa regra não surgiu do nada. Então, por que há pessoas que recomendam que não se adoce o café?

Basicamente, o problema do açúcar é que ele mascara as características positivas de um bom café; o adocicado predomina no paladar e diminui nossa sensibilidade para as nuances de sabor e aroma durante a degustação.

Simultaneamente, o açúcar torna um mau café mais palatável: ele também ajuda a mascarar as características negativas, como o excesso de amargor, ao fazer que o sabor adocicado predomine.

Em outras palavras, o açúcar aproxima o bom e o mau café – piorando o primeiro e melhorando o segundo.

E, como a maioria das pessoas toma (sem saber) café de grãos Robusta, quando resolve experimentar a bebida sem açúcar, acaba ficando traumatizada. Um café de Robusta, sem estar devidamente adoçado, é de fato intragável.

Quem já tentou beber café sem açúcar, e não conseguiu se adaptar, é porque não tentou com café feito de grãos Arábica. Dê ao seu paladar uma segunda chance – desta vez, com uma bebida feita com café 100% Arábica. Talvez você não se acostume na primeira ou na segunda tentativa, mas não desista. Bebidas alcóolicas também não são doces, mas nem por isso você vê pessoas colocando açúcar na cerveja ou no whisky. É tudo uma questão de costume – deixe para trás o conceito de que o café só será saboroso se estiver adocicado. Quando o amargor está presente na medida certa, ele não é bom ou ruim: é apenas uma característica que torna aquela bebida única.

Se mesmo assim insistir em beber seu café com açúcar, lembre-se: você não está fazendo nada de “errado”; está apenas jogando fora uma parte importante do sabor e da experiência de degustar um bom café. Escolha a forma de apreciá-lo que melhor convier ao seu paladar – mas tome esta decisão ciente das diferenças e após experimentar as duas possibilidades.

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2.4. Conservação: guarde o pó sempre na geladeira, em um recipiente que o proteja da luz e que permita vedação completa, evitando que o sabor do café seja contaminado por alimentos de odor mais forte. Muitas marcas de café gourmet atualmente já vêm em embalagens metalizadas especiais, com todas essas características. É só abrir, usar o pó, fechar e guardar na geladeira, dentro da própria embalagem original.

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3. Formas de preparo

As formas de preparo descritas abaixo não são as únicas que existem; são apenas as que eu conheço melhor. Por isso, falarei apenas delas.

Em primeiro lugar, é interessante entender o que diferencia uma técnica da outra. Ao contrário do que muitos pensam, o segredo não está nos tipos de grãos usados. Você pode fazer um espresso, um “cafezinho” coado no filtro ou um café italiano usando a mesma variedade de café.

A diferença fundamental entre as formas de preparo do café reside na pressão com que se força a água contra o pó de café.

Menor pressão significa extração menos eficiente dos óleos presentes no pó, gerando uma bebida mais leve, com aroma menos intenso e pouca ou nenhuma crema (espuma); maior pressão significa retirada mais intensa dos óleos, resultando em uma bebida mais forte, cremosa, com aroma intenso e crema espessa.

Afinal, qual a melhor forma de preparo do café? Depende do gosto de cada um. Responder a esta pergunta é como responder qual o melhor tipo de vinho; não há. Cada variedade de vinho se adapta a diferentes paladares, situações de degustação e condições de harmonização. Com o café, ocorre o mesmo. Por isso, conheça as características de cada forma de preparo e saboreie o melhor que cada uma tem a oferecer; cada momento da vida pede um café diferente.

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3.1. Café coado

É o nosso tradicional “cafezinho”, coado no filtro de pano ou de papel descartável. É obtido a partir da passagem da água pelo pó a uma pressão de 1 atmosfera (pressão ambiente); ou seja, a água desce por efeito da gravidade.

O resultado é um café de corpo mais leve, sem crema e de aroma moderado.

Deve ser preparado com pó moído fino, o que facilita a extração dos óleos presentes no café, já que a pressão é pequena e não ajuda nessa tarefa.

Agora que você já conhece a inconveniência da garrafa térmica, vem a pergunta: como continuar bebendo café coado sem precisar fazer um grande volume da bebida – já que a maioria das pessoas tem em casa uma cafeteira elétrica ou um funil para filtros de papel tamanho 102 ou 103?

Minha dica é o mini-funil tamanho 101 da Melita, que faz exatamente uma xícara grande. O filtro descartável, próprio para o mini-funil, também é vendido na medida certa. Como é pouca água, fazer apenas uma xícara de café demora só um minutinho no fogão.

Coador para apenas uma xícara.

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3.2. Espresso

É o café resultante da aplicação da água contra o pó a uma altíssima pressão – de 8 a 10 atmosferas. O resultado é uma bebida mais cremosa, de sabor e aroma intensos, corpo denso e uma crema espessa e homogênea, que ocupa toda a boca da xícara.

Deve ser preparado com pó moído grosso, pois uma moagem menos acentuada  preserva melhor os óleos presentes no grão, e, já que a pressão é altíssima, não há perda de eficiência na retirada destes óleos, como ocorreria no café pingado.

Como a maioria das pessoas toma espresso apenas em cafeterias ou restaurantes (falarei sobre as máquinas domésticas de espresso adiante), a grande questão é: como identificar um bom espresso?

São três os fatores que determinam a excelência (ou o fracasso) de um espresso:

1. qualidade dos grãos usados (se são realmente 100% Arábica e se foram conservados corretamente);

2. qualidade, limpeza e regulagem da máquina (que determina a pressão e a temperatura da água);

3. “mão” do barista.

O primeiro teste é o do aroma: grãos 100% Arábica tem um odor perfumado típico, facilmente diferenciável do cheiro dos grãos Robusta, mais grosseiro.

Mas o teste realmente revelador e seguro é o da análise visual da crema (espuma) do espresso ao chegar à mesa: a crema ideal deve ser espessa e consistente, ocupando toda a abertura da xícara, sem buracos que revelem o líquido abaixo, com bolhas minúsculas ou mesmo imperceptíveis. Sua coloração deve ser de um caramelo de tom médio, preferencialmente “tigrado” (pequenas faixas claras e escuras intercaladas). A crema ideal adere à superfície interna da xícara à medida que o espresso é bebido.

Quando a crema está muito clara, tendendo para o amarelo ou bege, e apresenta bolhas muito grandes, isso pode significar: tempo de extração (de passagem pela máquina) muito curto; quantidade insuficiente de pó na máquina; temperatura da água abaixo da ideal; grãos torrados insuficientemente; presença de grãos robusta na mistura.

Quando a crema está muito escura, tendendo para o marrom ou preto, e apresenta bolhas muito grandes, isso pode significar: tempo de extração (de passagem pela máquina) muito prolongado; pó moído muito fino; uso de mais pó de café do que o necessário; pressão ou temperatura da água muito acima do necessário.

Quando a crema está “furada”, sem cobrir toda a superfície da xícara, pode ser sinal de pó moído fino demais, além da possível presença de grãos robusta no pó (esta variedade de café não é propícia para formar uma crema tão consistente como a do arábica).

O espresso e sua crema.

Fonte: http://www.sweetmarias.com/espresso-crema.php

O sabor, obviamente, também tem muito a dizer. Mas depois de passar pela inspeção do aroma e da análise visual da crema, você não vai precisar provar a bebida para adivinhar se se trata de um espresso legítimo ou de um “café genérico”.

Finalmente, sobre as máquinas caseiras de espresso: como não possuo uma, não posso fazer uma análise precisa, mas já li um pouco a respeito na internet, e a conclusão à qual cheguei é que a maioria não vale a pena. Como a aplicação de uma pressão correta e elevada é fundamental para se obter um espresso de verdade, é de se imaginar que muitas máquinas de qualidade inferior simplesmente não deem conta do serviço. Por outro lado, máquinas muito grandes e de marcas famosas podem até render bons espressos, mas, além do custo elevado, devem exigir uma manutenção mais complicada, o que, para a realidade doméstica, não compensa.

Aí você pergunta: e a máquina de Nespresso? É de fácil manuseio e manutenção, e o café das cápsulas é de muito boa qualidade. O fato das cápsulas encerrarem o café por um tempo muito grande compromete o sabor (como eu já mencionei acima, no item 2.2), o que faz com que ele não se compare a um espresso de grãos moídos na hora, daqueles que você encontra nas boas cafeterias. Entretanto, como opção doméstica, considero que sua praticidade compensa esse lado negativo. O lado negativo que, para mim, continua não compensando, é o preço, tanto da máquina (a mais simples, aqui no Brasil, custa a partir de 500 reais) quanto das cápsulas – cerca de 2 reais por unidade. Para mim, que tomo em média duas xícaras de café por dia (que equivalem, cada uma, a uns 2 espressos), isso representaria um gasto da ordem de 240 reais por mês só com café (um dia eu chego lá). Se para você o preço não for problema, invista.

Já eu prefiro considerar o espresso como algo a ser bebido fora de casa, em cafeterias ou restaurantes, esporadicamente. Em casa, minha solução favorita é o tema do próximo e último tópico deste post.

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3.3. Moka (cafeteira italiana)

Patenteada em 1933 pelo italiano Alfonso Bialleti, é a solução favorita para confecção de café caseiro em vários países da Europa, incluindo, obviamente, a Itália.

O café resultante desta máquina costuma ser erroneamente chamado de espresso; a moka aplica à água uma pressão entre 2 e 2,5 atmosferas, muito abaixo da alta pressão exigida para se obter um espresso de verdade (relembrando: de 8 a 10 atmosferas). Assim, o café da cafeteira italiana é de sabor muito mais acentuado do que o do cafezinho brasileiro, mas não tão encorpado e aromático como o espresso.

Sua crema também não é tão consistente quanto a do espresso, desaparecendo quando o café é servido, ou se limitando às bordas da xícara.

O pó utilizado pode ser moído de médio-grosso a grosso – eu utilizo grosso, moídos exatos 10s no meu moedor doméstico. Não use, em hipótese alguma, um pó fino demais, pois o filtro de metal da moka não é capaz de retê-lo, resultando num café com muito sedimento. Além disso, o pó fino pode entupir os furos do filtro de metal, atrapalhando a passagem da água e desregulando todo o processo.

O grande mérito de Alfonso Bialleti foi a invenção de uma forma prática e acessível de se fazer café a uma pressão maior do que a ambiente, sem o emprego de um maquinário mais complexo.

A física do processo: a água é colocada no reservatório (A); ao ser aquecida, forma-se um vapor que a pressiona e força sua subida pelo funil e pelo filtro que contém o pó (B), até ser coletada (já na forma de café fresco) na câmara superior (C).

Abaixo, algumas considerações importantes sobre a cafeteira italiana:

  • dê preferência às mokas das marcas Bialleti ou Alessi (ambas italianas). Além de durarem mais, suas válvulas de segurança inspiram mais confiança (as válvulas são responsáveis pelo escape da pressão do vapor em caso de entupimento do funil, e válvulas defeituosas podem provocar acidentes);
  • prefira as mokas de alumínio, pois este metal tem a característica de “absorver” o pó com o tempo, gerando cafés cada vez melhores – quanto mais velha e usada for uma moka de alumínio, melhor o café que ela faz. Mokas de aço inox também podem ser usadas, mas, tradicionalmente, são rejeitadas pelos aficionados, por não permitirem este “amadurecimento” que acontece com o alumínio;
  • por uma questão de higiene, descarte os primeiros 5 cafés feitos em uma moka nova, pois a cafeteira chega da fábrica coberta por resíduos e óleos lubrificantes;
  • por uma questão de sabor, descarte os 10 primeiros cafés feitos em uma moka nova, pois eles serão verdadeiramente intragáveis, com um terrível gosto de queimado;
  • tenha paciência: sua moka nova é temperamental, vai espirrar café no fogão algumas vezes e só começará a fazer cafés bons a partir aproximadamente da 20ª extração. A maturidade plena da moka (sem espirros e com um café realmente saboroso) só ocorrerá depois da 30ª ou 40ª extração (eu não sei ao certo porque sempre perco a conta). Esse processo é necessário para o “amadurecimento” do alumínio e da borracha de vedação (ela chega de fábrica dura e seca, e precisa ficar flexível e macia);
  • nunca, jamais, em hipótese alguma, coloque na moka qualquer outra coisa que não seja água e pó de café. Leite e açúcar estão proibidos, pois além de mudarem (e atrapalharem) a física do processo de passagem do café, comprometem seriamente a vida útil do material;
  • sempre faça o café na capacidade máxima da moka. O motivo é simples: tudo na cafeteira italiana é dimensionada para que os processos físicos aconteçam da maneira correta. Se você colocar água a menos, ela se aquecerá e ferverá muito rápido, passando rapidamente pelo pó e resultando num café fraco e morno; se colocar pó a menos, a água encontrará pouca resistência, a pressão da passagem será menor e, novamente, o café resultante será fraco e sem personalidade. Se somar então as duas coisas (água a menos e pó a menos), a trapalhada está completa. Por isso, é importante que você compre uma moka do tamanho certo para o seu hábito de consumo. Se não for precisar de grandes quantidades de café diariamente, o ideal é ter uma moka pequena em casa (para até três xícaras). Se comprar uma moka grande demais, vai acabar fazendo mais café do que precisa e desperdiçando o que sobrar.

A seguir, um passo-a-passo sobre como fazer café usando uma cafeteira italiana. Pode parecer complexo, devido aos muitos detalhes para se lembrar, mas na verdade não é: nenhum dos passos depende de avaliações subjetivas (como a quantidade de sal numa receita). Basta seguir à risca estas dicas, e o sucesso do seu café está garantido.

  1. Encha o reservatório com água gelada, até o limite inteferior da válvula de segurança. Por que água gelada? Porque queremos que o processo de aquecimento da água seja o mais lento possível, para que ela suba mais devagar pelo funil e fique o maior tempo possível em contato com o pó, otimizando a extração dos óleos do café.
  2. Coloque o filtro e encha-o completamente com pó (de grãos 100% Arábica, não custa lembrar) moído médio-grosso ou grosso. Não aperte ou compacte o pó, pois isso dificulta a passagem da água e atrapalha o processo. Apenas bata lateralmente no filtro, para que o pó fique nivelado.
  3. Rosqueie a parte superior da moka (parte que coleta o café). Segure sempre pela parte de metal, nunca pelo cabo, pois você pode quebrá-lo com a torção (a mesma observação vale para quando for abrir a cafeteira na hora da limpeza). Certifique-se de fechar a moka com bastante firmeza; caso contrário, o vapor poderá escapar pelas fendas da rosca, diminuindo a pressão interna e estragando todo o processo.
  4. Coloque a moka no fogo baixo. O motivo do fogo baixo é o mesmo da água gelada: queremos que o processo de aquecimento seja lento.
  5. Mantenha a tampa aberta. Se fechar a tampa, o vapor d’água se condensará, acumulando-se na forma de gotículas nas paredes internas da moka, diluindo o café e alterando-lhe o sabor.
  6. Observe todo o processo. Esquecer a moka no fogão pode ter como consequência desde um café com gosto de queimado (quando ele fica no fogo por até 30 segundos além do tempo ideal) até a completa inutilização da cafeteira, quando a mesma fica no fogo por muitos minutos além do tempo correto, provocando o derretimento da borracha de vedação.
  7. Quando sua cafeteira estiver no ponto ideal de maturação, o café deverá sair sem espirros, em um fio de fluxo constante, gerando uma crema de tom caramelo. Nesse momento, percebe-se um aroma perfumado similar ao do espresso.
  8. Desligue o fogão imediatamente após começarem a surgir bolhas, que serão companhadas de um som (borbulho) característico.
  9. Mexa o café para misturar bem a porção inicial (mais forte) e a final (mais fraca), garantindo que todos recebam em suas xícaras um café uniforme.
  10. Feche a tampa e deixe o café repousar por 30 segundos antes de servir. O objetivo é promover a deposição dos sedimentos, evitando que os mesmos acabem dentro das xícaras.

Se você fez tudo certo, seu café deverá ter essa aparência:

Moka em ação.

E para finalizar, duas dicas importantes sobre limpeza e conservação:

  • nunca, jamais, em hipótese alguma, lave sua moka com sabão, detergente ou qualquer outro produto de limpeza. Devido à característica do alumínio de absorver resíduos com o tempo, lavar sua moka com sabão destruiria definitivamente o sabor do café produzido. Utilize apenas água corrente e certifique-se de que todas as partes estejam completamente secas antes de guardar sua moka. De tempos em tempos, faça uma limpeza mais profunda, colocando a cafeteira no fogo apenas com água (sem café no filtro);
  • se você for um maníaco por limpeza e fizer questão de usar sabão na lavagem, prefira uma moka de aço inox, enxaguando-a com abundância antes de usá-la, para se assegurar de que eliminou todo e qualquer resíduo de sabão.

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Poesia Coquetista

julho 23, 2009

No II Concurso Literário da piauí de julho/09, a revista nos desafiou a encaixar a seguinte frase: “E dizer que estraguei anos de minha vida, que eu quis morrer, que tive meu maior amor, por uma mulher que não me agradava, que não fazia o meu gênero!” (Marcel Proust, do 1º volume da obra “Em Busca do Tempo Perdido”).

A frase era grande demais, ela já dizia muito. Resolvi então levar a idéia de “encaixar” a frase às últimas consequências. Taí o resultado: acabei conseguindo mostrar qual é o “gênero” da mulher em questão sem acrescentar uma só palavra! Saiu publicado na piauí de agosto/09.

encaixe_semcontorno_baixa

Para quem não entendeu o título: é uma mistura de “poesia concretista” (também conhecida como poesia concreta) com a palavra “coquete”.

Coquete: “Diz-se da mulher que, pelo prazer de ser admirada, procura despertar o interesse amoroso dos homens.” (Dicionário Michaelis Online)

Poesia concreta: veja este site (www.poesiaconcreta.com.br) e alguns exemplos de:

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Augusto de Camposaugusto

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Haroldo de Campos
haroldo

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Décio Pignatari
decio

Senhor *

maio 5, 2009

* Baseado em uma piada roubada de Felipe Branquinho

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Eu tenho um cão: seu nome é Senhor.

Um pastor alemão de capa negra, pelagem brilhante, forte, inteligente, verdadeiro modelo para a raça. Desde filhote treinei Senhor em atividades variadas. Ele me faz companhia em casa, caminha e corre comigo na rua, busca o jornal e meu chinelo quando chego do trabalho, e ainda me avisa quando percebe alguém à porta – minha casa nem precisa mais de campainha.

Embora seja um cão manso e obediente, Senhor também me dá segurança, graças ao seu porte avantajado e latido poderoso. Ainda não o ensinei a levar o lixo para fora, mas Senhor sabe fazer suas necessidades no cantinho certo, o que já é de grande ajuda na limpeza do lar.

Como se não bastassem todos esses atributos domésticos, Senhor é ainda um campeão: foi diversas vezes vencedor de concursos de beleza em feiras e exposições. Além dos prêmios em dinheiro, eu cobro por cada vez que ele é procurado para cruzamentos com fêmeas da mesma raça, pois Senhor tem pedigree e descende de uma linhagem de muito prestígio. Assim, o dinheiro que esse cão me rende cobre todas as despesas com sua alimentação, banho e veterinário, e ainda me dá lucro.

Para completar, um passeio com Senhor pelo parque é garantia de uma boa paquera, pois seu belo pelo e o porte distinto chamam a atenção das mulheres que estiverem por perto, o que é um excelente pretexto para começar um bate-papo.

Meu cão pastor me dá companhia, obediência, segurança, dinheiro e mulheres. Com Senhor sempre ao meu lado, nunca me falta nada.
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MORAL
O Senhor é o meu pastor, nada me faltará.

O S que faltava

abril 8, 2009

À maneira dos… alemães
(homenagem ao mestre Millôr)

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____Lá pelos idos de 1989, dois alemães, um comunista e um consumista, conversavam, cada qual do seu lado do muro:

____– É interessante notar – berrou o consumista, para se fazer ouvir do lado de lá -, que não somos tão diferentes assim. Já percebestes, subversivo irmão, que ‘consumista’ e ‘comunista’ são anagramas¹ perfeitos?

____Coçando seu bigode à la Stalin², o comunista se apressou em corrigir o compatriota³:

____– Avaliastes mal, caro porco capitalista: há um S que falta em comunista e sobra em consumista.

____O consumista contou as letras nos dedos:

____– C-O-N-S-U-M-I-S… C-O-M-U-N-I-S… Scheiße, é verdade! – lamentou o sobrinho de Tio Sam. – Que pena! Seria uma imagem tão poética para nossa reunificação!

____O comunista, ofendido no âmago de sua sensibilidade ideológica, não hesitou em protestar:

____– Reunificação? Quê isso ô meu, tá me estranhando? Longa vida à foice e ao martelo!

____– Ora amigo, foice o tempo do martelo! – trocadilhou o consumista. – Nós temos tanto em comum que tivemos de iniciar uma guerra fria por falta de atrito!

____O comunista já se preparava para responder à altura o trocadilho reincidente. Foi quando surgiu um proletário picareta e, fazendo uso de ferramenta homônima, derrubou o muro, no que foi seguido por uma turba de alemães orientais, ávidos pela liberdade de tocar suas vidas como bem entendessem que a publicidade mandava.

____Galgando o que havia sobrado dos tijolos, o comunista, num último suspiro de cu-doce ideológico, ficou em cima do muro4:

____– Vou? Não vou? Vou? Não vou?

____O consumista ofereceu-lhe então uma nota de dez dólares.

____– Vou! – decidiu-se o comunista, e foram juntos comer junk-food, já que no McDonald’s local não eram aceitos seus cupons de alimentação do lado oriental.

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MORAL
Para converter um comunista em consumista, basta acrescentar um $.
ou
Em terra de foice e martelo, quem tem uma picareta é subversivo.

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1. Palavras cujas letras embaralhadas formam outra palavra.
Ex.: mala-lama, ramo-amor, Raul-luar, política-suruba, entre outras.
2. Tratava-se de um camarada com distúrbio de personalidade saudosista-masoquista.
3. Alemães orientais e ocidentais são compatriotas? O que é mais forte: a ideologia que separa ou a cerveja que une?
4. Literalmente.

1, 2, 3, 4, 5, 6

março 2, 2009

Eu sempre digo para as pessoas não jogarem na loteria, mas a maioria acha que é chatice minha. E é mesmo. Só que é chatice embasada matematicamente.

Por isso, desenvolvi esse texto tentando ser o mais claro possível, fazendo uso de desenhos e analogias simples, com uma linguagem acessível. Espero que, ao final da leitura, você esteja preparado para aceitar meu desafio.

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Comecemos com a pergunta chave: você apostaria na Loteria uma combinação de números em sequência? Em outras palavras, você investiria seu dinheiro apostando na combinação 1, 2, 3, 4, 5, 6?

Não? Parabéns, você está com a maioria. E por quê? Ora, responde a maioria (e eu imagino que você também), porque é praticamente impossível que sejam sorteados estes números assim, na sequência exata! E até aqui eu concordo com você – e com a maioria.

Vem então a segunda pergunta: e em uma combinação de número aleatórios (por exemplo: 9, 12, 25, 27, 49, 55), você apostaria? A resposta da maioria (e talvez a sua) costuma ser: claro que sim! Não só jogaria como jogo toda semana! E completa: porque é muito mais provável que seja sorteada uma combinação de números aleatórios! Portanto, eu tenho muito mais chance de ganhar apostando em uma combinação assim. Bom, é aqui que o bicho pega (não o jogo-do-bicho, esse eu discutirei em uma outra oportunidade).

O problema é que a primeira frase está correta, mas a segunda não. De fato, é muito provável que o sorteio da loteria contemple uma combinação de números aleatórios, MAS, ao apostar em uma linda e caótica combinação de números aleatórios, sua chance de se tornar um milionário não será nem um pouco maior do que a de quem resolve apostar na petulante combinação de números em sequência.

Nesse momento, tochas são acendidas e gritos de ordem ecoam na praça: “Heresia! Blasfêmia matemática! Todo mundo sabe que é muito mais provável ganhar com uma combinação de números aleatórios!”

Não é?

Não, não é. Desculpe. Se você tivesse jogado 1, 2, 3, 4, 5, 6 a sua vida inteira, teria tido a mesma chance de ganhar.

Como assim? Vamos lá.

Imagine um globo daqueles de bingo onde caibam 60 bolas, como na imagem abaixo. Qual é a chance de que seja sorteada qualquer uma das 60 bolas? Uma chance em sessenta, ou 1 em 60. Se você apostar sempre no número 36, por exemplo, será o vencedor a cada mais ou menos 60 sorteios.

bingo1

Agora imagine que nós retiremos de dentro do globo todos os números pares, com exceção do 2, formando uma situação como a da imagem abaixo. Teremos, então, 31 bolas dentro do globo de bingo: todos os 30 números ímpares de 1 a 59, mais o número 2 como único representante dos pares. Qual é a chance de ser sorteada qualquer uma das bolas do globo? Uma chance em 31, qualquer que seja a bola.

bingo2

Eu então pergunto: escolha um número nesse globo para apostar seu dinheiro – lembre-se que tiramos todas as bolas pares, com exceção da 2. Qual número você escolheria?

Nessa hora, o raciocínio típico é o seguinte: há 30 bolas ímpares dentro do globo, e apenas uma par. A chance de sair um número ímpar é de 30 em 31, mas a chance de sair um número par (o número 2) é de apenas 1 em 31. Por isso, tenho mais chances de ganhar se escolher um número ímpar. Certo?

Não, errado. Sua chance de ganhar escolhendo um número ímpar é exatamente a mesma de ganhar escolhendo o pobre e solitário número 2.

Perceba que se a pergunta fosse: você aposta que será sorteado um número ímpar ou par?, então você faria muito bem em apostar que será sorteado um número ímpar, qualquer que fosse ele. Afinal, a chance de que saia do globo uma bola ímpar é de 30 em 31, e apenas uma chance em 31 de que saia uma bola par. Mas a pergunta é diferente: você aposta que será sorteado qual número? Estamos falando de apenas um número, independentemente dele ser par ou ímpar. Se você escolhe uma bola ímpar, por exemplo a 43, ela é apenas uma entre as outras 31 bolas, exatamente a mesma situação da bola de número 2. O mesmo raciocínio vale para quaisquer das outras bolas ímpares. A chance para cada uma delas de ser sorteada é, individualmente, a mesma: 1 em 31 – mesmo que elas estejam dentro do grupo que tem mais chances de ser sorteado, ou seja, o grupo dos números ímpares.

Simples, não? Não importaria se esse globo de bingo tivesse 1.000 números ímpares e apenas um par: estatisticamente, a chance individual de qualquer bola seria exatamente a mesma, mesmo se sabemos que, muito provavelmente, será contemplado um número ímpar no sorteio. Você poderia facilmente apostar no número 2 sem se passar por otário(a).

Agora vamos transpor o raciocínio para o universo da loteria – é aqui que os ânimos costumam ficar exaltados. Tomemos como exemplo a Mega-Sena: nela, o jogador deve montar sua aposta escolhendo 6 números entre 1 e 60 (é possível montar o seu jogo usando mais de 6 números e pagando mais caro por isso, mas vamos nos limitar à análise do jogo básico de 6 números). Nessas condições, são possíveis 50.063.860 combinações diferentes.

Não se assuste com o cálculo. Vamos usar um exemplo concreto: a combinação proposta no início deste texto – 9, 12, 25, 27, 49, 55.

No primeiro sorteio, a chance de cada bola ser sorteada é 1 em 60. Como você tem seis bolas no seu jogo e não importa a ordem em que as bolas saem, somam-se as chances de cada bola, e a sua chance total de acertar um número no primeiro sorteio é de 6 em 60. Uma vez que um de seus seis números tenha sido contemplado, por exemplo o 49, os números restantes serão 9, 12, 25, 27, 55. Haverá uma bola a menos dentro do globo, e a chance de que um segundo número da sua aposta seja contemplado será de 5 (quantidade de números restantes no seu jogo) em 59 (quantidade de números restantes no globo de sorteio). Se você, no segundo sorteio, acerta mais uma bola, a 9 por exemplo, seu jogo agora passará a ser formado pelos números restantes 12, 25, 27, 55. A probabilidade de que acerte um terceiro número será de 4 em 58, e assim sucessivamente. Matematicamente, isso é expresso da seguinte maneira:

probabilidade

Ou seja, sua chance de ganhar na Mega-Sena é de uma em 50.063.860 sorteios.

O problema é que essa afirmação é verdadeira independentemente de sua aposta ser formada por uma combinação de números aleatórios ou sequenciais. Pois é. E agora você já tem conhecimentos matemáticos suficientes para entender o porquê.

Considere a combinação de números sequenciais 1, 2, 3, 4, 5, 6. No primeiro sorteio, a chance de cada bola é, individualmente, 1 em 60, e sua chance total de acerto, considerando os 6 números que fazem parte da sua aposta, é de 6 em 60. Uma vez que tenha saído um dos números, digamos o 2, seu jogo agora será formado por 1, 3, 4, 5, 6, e a chance de que você acerte um segundo número será de 5 em 59, e assim sucessivamente. O importante aqui é compreender que a chance individual de cada bola é sempre a mesma – lembre-se do exemplo lá de cima, em que o globo tinha apenas uma bola par em meio a 30 ímpares, e todas tinham a mesma chance de ser sorteada. Não importa se sua aposta da Mega-Sena é formada por uma sequência de números aleatórios ou sequenciais, ela terá sempre a mesma probabilidade de ser contemplada.

Conclusão: quando você faz uma aposta de números aleatórios, é como se tivesse feito uma aposta de números sequenciais. Jogar 9, 12, 25, 27, 49, 55 ou 1, 2, 3, 4, 5, 6 é, para fins de probabilidade, a mesmíssima coisa. Não sou eu que estou dizendo isso, é a matemática – ciência que tem a irritante mania de ser exata. Na Mega-Sena, existem apenas 55 combinações de números sequenciais (começando em 1, 2, 3, 4, 5, 6 e terminando em 55, 56, 57, 58, 59, 60), e dezenas de milhões de combinações aleatórias. Sabemos que no próximo sorteio da Mega-Sena, MUITO PROVELMENTE o jogo vencedor será formado por uma combinação de números aleatórios; entretanto, lembre-se: a pergunta não é você aposta que será sorteada uma combinação de números sequenciais ou aleatórios?, a pergunta é: você aposta que será sorteada qual combinação específica? As pessoas que apostarem em uma combinação aleatória não terão mais chances de ganhar do que aquelas que escolherem uma combinação de números em sequência – 1, 2, 3, 4, 5, 6.

megasena_1

C.Q.D.

Já faz algum tempo que uso oralmente a argumentação exposta neste texto. As pessoas ouvem com atenção e, ao serem indagadas se entenderam tudo, respondem que sim. Dizem que a parte da matemática ficou clara, e que ficou bem óbvio o fato de que apostar numa combinação aleatória ou sequencial é a mesma coisa. Eu então pergunto: você vai continuar jogando na loteria? E a resposta é invariavelmente a mesma: SIM! “Eu sei que a chance é muito pequena, mas não custa nada tentar!”

No começo eu me aborrecia com isso, mas agora entendo que existe um abismo entre a compreensão teórica destes argumentos e o entendimento de sua aplicação na vida real. Por isso, peço que você guarde com carinho as informações contidas neste texto, e aceite o desafio que eu vou lançar.

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DESAFIO

Em sua próxima ida à casa lotérica, pegue um papelzinho de apostas a mais. Depois de preencher a sua combinação habitual (ou combinações habituais, caso você seja daqueles jogadores inveterados), preencha no papel extra o jogo 1, 2, 3, 4, 5, 6. Olhe para ele e perceba o quão inútil seria apostar nessa combinação. Coloque esse jogo lado a lado com os demais e perceba: eles valem exatamente a mesma coisa.

Olhe bem para o jogo abaixo. Você apostaria 1, 2, 3, 4, 5, 6? Não? Pois, agora que já sabe que essa combinação tem a mesma chance de ganhar que as demais, por que você apostaria qualquer outra combinação? Você ri ao olhar para o 1, 2, 3, 4, 5, 6? Pois, ao fazer isto, você está rindo de todos os seus outros jogos!

megasena_2

Se mesmo assim você decidir continuar apostando na loteria, o desafio muda de figura: você fica agora intimado a incorporar o 1, 2, 3, 4, 5, 6 entre seus jogos habituais. Você terá de suportar esse jogo ridículo na sua mão toda semana, ao se dirigir à casa lotérica, e sentir 2 reais indo embora por algo que é obviamente um disparate. Quem sabe então, um dia, você finalmente perceba o quão sem sentido é insistir nesse hábito. Sim: cada vez que você aposta na loteria, é essa a sua chance de ganhar: 1, 2, 3, 4, 5, 6. Enfie isso na cabeça.

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P.S.: pedi a um amigo formado em matemática que revisasse esse texto e a correção do raciocínio exposto. Ele mandou de volta as correções necessárias e, de brinde, uma piada de matemáticos:

o governo estava bolando uma forma de aumentar a arrecadação, e pensou em criar um imposto que seria cobrado das pessoas que não sabem matemática – quanto menos a pessoa entendesse de matemática, mais imposto pagaria. Depois de uma análise criteriosa, tiveram de abortar o plano, pois perceberam que tal imposto já existia: chamava-se loteria.

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P.S. 2: o portal Terra tem um simulador de jogos da Mega Sena que é bem interessante. Permite simular jogos de 6 a 25 números em um intervalo de até 10 anos. Clique, simule uns joguinhos e sinta o drama.