Gastronomática

Sentou-se correndo, a despeito dos olhares ameaçadores de uma senhora gorda que ambicionava o mesmo lugar, mas que acabou perdendo a disputa por uma diferença de meio metro. Fazia já dez minutos que toda a família perambulava por entre as mesas da praça de alimentação. “Vamos nos dividir, assim cobrimos um território maior”, sentenciara o líder da matilha. Se por um lado a estratégia havia dado resultado, por outro levou mais dez minutos para pai, mãe e filho se reencontrarem.

Teve que resistir a três investidas pela posse das cadeiras vazias, e ainda dispensar 4 cardápios diferentes (um de sanduíche natural, dois de pizza e outro de comida pan-asiática), até finalmente conseguir chamar a atenção da esposa e do garoto. Findo o combate, delimitado o território, era hora de dividir a caça: a assaz palatável comida de shopping.

Tanto esforço tinha um bom motivo: aquela era a única refeição em família durante toda a semana.

Nos bons tempos, as famílias se reuniam aos domingos na casa da vó (ou da mãe, ou da sogra, dependendo do ponto de vista), para se empanturrar de macarronada, jogar conversa fora e eventualmente cochilar no sofá. Mas isso agora era passado: no almoço de domingo moderno, o shopping era a nova casa da vovó – e sem direito a cochilo no sofá.

____– Aquele restaurante de novo? Não, vou comer hambúrguer – apressou-se em protestar o filho.
____– Só hambúrguer não enche a barriga – retrucou o pai.
____– Não é só hambúguer, vem com batata e refrigerante. Dá o dinheiro.
____– Dez reais dá?
____– Só para o hambúrguer, dá.
____– Leva 20.

Vai o filho, chega o garçom da casa de massas e grelhados. Além de ser a mais distinta opção em meio àquele mar de fast food, agradava ao pai o fino requinte do sousplat de papel que forrava o pedaço de mesa à sua frente – não tanto pela higiene, mas pelo conforto de não sentir os cotovelos grudando na camada de refrigerante seco que enverniza a superfície da mesa.

____– Boa tarde. O cardápio, senhor. O cardápio, senhora.
____– Traz um chope, por favor.
____– Eu vou de suco de uva light.
____– Perfeitamente, só um instante.

Dois instantes depois.

____– Seu chope, senhor.
____– O chope é para ela.
____– Perdão. Seu chope, senhora. Seu suco de uva light, senhor. Gostariam de fazer os pedidos?
____– Sim. Eu vou querer o 37.
____– Bem ou mal passado, senhor?
____– Ao ponto.
____– E eu vou querer o 50 com a guarnição 12.
____– Perdão senhora, o 50 hoje está em falta, mas temos o 51, que também é muito bom.
____– E qual é a diferença?
____– O recheio é de frango.
____– Tudo bem, pode ser.
____– Com molho branco ou quatro queijos, senhora?
____– Molho branco.
____– Perfeitamente. Um 37 ao ponto para o senhor, um 51 com molho branco e guarnição 12 para a senhora. Excelentes pedidos senhores, com licença.

Vai o garçom, regressa o filho com a bandeja. Hambúrguer, batata frita e refrigerante, como prometido. Refeição completa.

____– Que hambúrguer é esse?
____– Promoção número 5 com fritas grandes.
____– Vira essa batata para cá.
____– Eu acho – manifestou-se a mãe – que você deveria insistir mais para o júnior se alimentar bem. Você comendo um 37, eu um 51, e ele apenas com um 5?
____– Que bobagem querida, isso não é um 5 qualquer: vem com fritas grandes!
____– Tudo bem, digamos que ele valha por um 5 e meio. Ainda assim é pouco para um jovem em fase de crescimento.
____– E quanto é suficiente para ele, então?
____– Sei lá, qualquer coisa acima de 15 ou 20.
____– O meu pode ser só um 5 – intervém o garoto, limpando o catchup do canto da boca – mas garanto que tem mais calorias que os pedidos de vocês dois juntos.

Xeque-mate. Não que o excesso de calorias fosse um argumento nutricionalmente válido, mas, para uma família mais afeita à matemática que à gastronomia, a lógica do raciocínio era indiscutível.

Volta o garçom com os pratos. O aroma da refeição é até razoável, apesar do cheiro de estrogonofe de camarão que emana da mesa ao lado. Almoçam em silêncio, porque se aquela refeição em família servia para uní-los em alguma coisa, era na completa falta de assunto em comum.

O marido é o primeiro a terminar, embora não entenda exatamente por que comeu com tanta pressa.

____– Querida, como estava seu 51?
____– Chegou um pouco frio, mas estava gostoso.
____– Pois o 37 estava muito passado, quase queimado. Qualquer dia venho aqui ensinar a esse povo o significado de “ao ponto”.
____– Claro que sim meu bem, claro que sim.
____– Não precisa ser sarcástica. Você sabe muito bem que ninguém assa uma picanha como eu! E ao ponto!
____– Mas querido, isso que você comeu era lombo de porco.
____– Era picanha.
____– Lombo de porco.
____– Passe para cá esse cardápio. – Pega o cardápio, corre o dedo pela lista. – Caramba, o 37 era lombo!
____– Eu te disse.
____– Da próxima vez, me lembre de pedir o 36.
____– Picanha?
____– Não, nhoque de batata. Aí não tem erro.

Volta o garçom oferecendo a sobremesa.

____– Deixa eu ver as opções – adianta-se a mulher. – Ai, estou de regime, mas não vou resistir. Será que eu peço um 62? Ou quem sabe um 67?
____– Já que você está de regime, pede só um 62 mesmo.
____– Mas se eu pedisse o 67, a gente poderia dividir para nós dois.
____– Não dá.
____– Por que não dá?
____– 67 é número primo. Você sabe que eu detesto frações.
____– Ok querido, eu como 34 e você fica com 33. Pode ser?
____– Tudo bem, pode pedir. E você filho, vai querer o quê?
____– Deixa eu ver o cardápio. Hum… vou querer um 72!
____– Tem certeza que você aguenta um 72 sozinho?
____– É para compensar, já que vocês reclamaram tanto do meu 5.
____– Quero só ver. Amigão, anota aí então: um 72 para o garoto e um 67 para nós dois. E já pode trazer a conta.

Pedir a conta de uma vez era um plano estratégico para acelerar a vinda da sobremesa. Meio instante depois, chegavam o 72, o 67 com duas colheres, e o 112,30 com os 10% já incluídos.

____– Perdão, acho que tem um erro nesta conta. Que 9 é esse?
____– É com brócolis – explica o garçom.
____– O quê?
____– O 9 é arroz com brócolis. O 8 é sem.
____– Amigo, o que eu estou dizendo é que ninguém aqui comeu arroz com brócolis.
____– Não tem problema senhor, é o mesmo preço.
____– Mesmo preço do quê?
____– Do arroz sem brócolis.
____– Eu sei, mas nessa mesa ninguém pediu arroz: nem com brócolis, nem sem brócolis!
____– Calma querido, não vai perder a cabeça por causa de uma guarnição. Ainda mais sem brócolis.
____– Com brócolis, senhora.
____– Muito bem – esclarece o marido, – com brócolis ou sem brócolis, nós não pedimos nem o 8 nem o 9, deu para entender?
____– Hum… tem razão senhor, o 9 foi para a mesa ao lado. Só mais um instante.
____– É por isso que sempre se deve conferir a conta – desabafa com a mulher. – É assim que esse povo ganha dinheiro: começam colocando um 9, depois um 15, e quando você menos esperar, te cobram um 40 que ninguém pediu!

cccccc.

MORAL
Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se fatora
(embora os números primos sejam de digestão mais pesada).
ou
Não importa o que você coma – no fim do processo
digestivo, tudo se reduz a número 1 e número 2.

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