Morte e vida esterlina

Nasceu certa vez uma moeda. Era simples, de vulgar redondeza, sem mais encantos do que suas irmãs – mesmo porque eram gêmeas, quase todas. Sua família era abastada, e gostava de ostentar. Habitava um casarão, desses com vista para a pobreza alheia e placa imponente junto ao portão: Casa da Moeda, bradava aos plebeus.

Mas nem mesmo todo aquele conforto era páreo para seu insaciável espírito de aventura, e foi muito cedo na vida que a pequena moeda se emancipou.

– Quero entrar em circulação! – declarava.

Embora ainda lhe faltasse muito que amadurecer, recebeu o apoio de seus pais, que eram bastante liberais – neo-liberais até, diziam as más línguas do clube de investimentos que frequentavam, fato que era inescrupulosamente explorado pelos paparazzi dos tablóides econômicos.

E assim, aquela inocente moedinha, que ainda ontem brincava de ciranda financeira com as irmãs, lançou-se à selvageria do mundo capitalista.

Sem lenço, sem documento, e com apenas algum lastro no bolso, decidiu construir para si uma vida de que pudesse se orgulhar: casar-se, gerar um casalzinho de dividendos, estabelecer um lar. Talvez fazer uma poupança; afinal, naqueles tempos de câmbio flutuante, era preciso pensar nos juros futuros.

Os problemas começaram quando ela se apaixonou pelo cara errado: Mr. Coin, como era conhecido. O sujeito gostava de se gabar, contando suas aventuras no mercado internacional de ações. Money makes the world go around, repetia sempre. Dizia valer o seu peso em ouro, ou até mais. Tinha um sotaque carregado, e trazia no peito a reluzente efígie de um de seus ex-presidentes favoritos.

No círculo de amigos, ninguém suportava o ar presunçoso com que Mr. Coin proferia suas frases feitas. Todos o consideravam um pedante, com exceção da ingênua moeda, que o admirava embasbacada.

– Meus caros, não resta dúvida de que todo o nosso conhecimento começa pela experiência especulativa, e esta eu tenho de sobra! – afirmava sobranceiro, para enfado geral e suspiro da amante.

A moeda só suspeitou que algo estivesse errado no início da vida sexual do casal: descobriu que o marido não passava de um penny. Apesar da decepção, continuou acreditando que aquele macroeconômico amor seria eterno.

Ledo engano.

O casamento não sobreviveu à bombástica revelação: Mr. Coin não era um dólar americano, como sempre se apresentara, mas um dólar jamaicano! O canalha não passava de um tostão furado, sem a menor vergonha na cara ou na coroa.

Desiludida, a moeda caiu em uma grande depressão, com sintomas semelhantes aos da epidemia de 1929. Para ganhar a vida, começou a se envolver em transações escusas na zona boêmia, passando de mão em mão durante a noite. Encontrava-se a caminho da ruína.

Um dia, passeando por uma praça, viu seu reflexo na água da fonte. Estava toda opaca, azinhavrada e sem liquidez: seu valor de face há muito expirara. Uma triste figura, que já não servia nem de troco na padaria. Pensou nas ilusões do passado, e desejou ter feito tudo diferente. Mas agora, com uma vida assim tão sofrida, valia mesmo a pena continuar a viver?

Não, não valia.

Ela então se jogou: suicidou-se na fonte dos desejos.

Texto inscrito no Concurso Encaixe a Frase, da revista piauí, em dezembro de 2008. Para esta edição 2009 do concurso, a revista elegerá todo mês uma frase de algum grande pensador, filósofo, romancista, escritor, poeta ou coisa que o valha. A frase a ser encaixada desta vez, destacada acima em negrito, é de Emmanuel Kant (1724-1804).

Observação em 03/01/09: Saiu a edição de janeiro da piauí. Pelo jeito, “Morte e vida esterlina” não agradou à redação da revista. Tudo bem, mês que vem tem mais. Abaixo, a transcrição do texto vencedor.
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REVOLUÇÃO DIDÁTICA
Guilherme Dearo
.
“Não resta dúvida de que todo o nosso conhecimento começa pela experiência.”
Blam!
O menino virgem fechou bruscamente o livro de Anatomia Humana e, decidido, bradou: preciso fazer sexo!
Tirou zero na prova do dia seguinte, mas a professora até que era jeitosa.

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