Primavera no Alasca

Acordou, ajeitou os cabelos grisalhos e lavou da fronte amarrotada os vestígios da noite em claro. Sobre o espelho, dois pedaços de papel presos na moldura lembravam-no da agenda do dia. Um mau humor o tomou de súbito: eram os convites para a pinacoteca. Tinha aversão pelas artes desde um fatídico dia, muitos anos atrás. Foi o dia quando recebera a resposta da editora. Haviam recusado seu melhor livro, A Insustentável Leveza dos Tempos do Cólera: Veredas, um romance policial pornomarxista de ficção científica.

Sentira-se um gênio incompreendido, autor póstumo, patrono da literatura em uma sociedade vindoura mais esclarecida. Naquela tarde saiu de casa macambúzio, disposto a expurgar o acre sabor do fracasso. Dirigiu-se ao museu da cidade, que abrigava uma exposição de arte abstrata. Indignou-se com o prestígio daquele punhado de borrões. Então aquilo era arte? Milhões de dólares pagos por uma tela que era o próprio retrato do caos, e seu romance dileto engavetado! Desde então, o escritor passou a odiar a pintura como se ela fosse a pungente encarnação da injustiça.

De volta ao espelho, resignou-se. Visitar a pinacoteca seria uma grande provação, mas o prêmio pelo esforço seria a Glória. Glória, sua vizinha de porta, uma jovem tentadora que inspirava as mais cafonas passagens de seus romances.

Conhecia seu gosto pela pintura e queria impressioná-la, já que os perfumados versinhos em rima que jogava por debaixo da porta pareciam não surtir efeito.

Chegou à exposição com o repertório abastecido. Identificou estilos, técnicas, volumes e contrastes, entre muitos outros termos que improvisara na madrugada anterior pela internet. Ele mesmo não acreditava em uma palavra do que dizia. Falácias.

Sua verborragia durou exatamente 54 quadros, 13 corredores e 6 salões. Acabou diante de uma tela pintada toda de branco. Uma grande, hedionda e paradoxal composição de apenas uma cor. Ao olhar para a tela em branco, o escritor se deu conta de que não tinha mais nada a dizer. Leu na etiqueta o nome da obra: Primavera no Alasca.

Foi o golpe de misericórdia.

Estacou emudecido diante daquela afronta. Todo o seu atrofiado senso estético contorcia-se em espasmos de incredulidade. Chorou. A seu lado, a jovem contemplava o quadro confusa, esperando uma explicação.

Incomodada com o silêncio, fitou o escritor. Sentiu um arrepio ao ver suas lágrimas. Afinal concordou: tratava-se realmente de uma obra prima.

E uniu-se a ele, emocionada, na catarse daquele pranto.

Texto vencedor do Concurso Encaixe a Frase, da revista piauí, e publicado na edição especial que circulou na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) em julho de 2008.

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